Editorial

Edição nº1375 – quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

2019: o fim do mito da "caixa-preta"

Não tem muito tempo colegas do Banco tomavam como fato consumado que tínhamos perdido o debate na opinião pública. A "caixa-preta" do BNDES levaria décadas para ser superada. Repetimos em diversas oportunidades e espaços – nos editoriais, nas visitas aos andares, nas plenárias realizadas no térreo, na única conversa que tivemos com o presidente Montezano – que o tema da "caixa-preta" deveria ser enfrentado com persistência, conquistando os formadores de opinião, e com paciência, entendendo que a convicção dos formadores de opinião acabaria por afetar decisivamente a opinião pública.

Os fatos estavam do nosso lado. E se perdermos a convicção de que a verdade é uma aliada poderosa, nos rendemos para o cinismo absoluto. Já havia demonstrações importantes de revisão da opinião pública quando o atual presidente do BNDES foi empossado. No primeiro editorial depois da posse de Montezano ("As cinco metas de Montezano", VÍNCULO 1354, de 22/07/2019), afirmamos o que em retrospecto se revelou profético:

"Há avanços claros na percepção da opinião pública esclarecida sobre a situação do BNDES em termos de transparência. Temos que persistir nesse caminho. Hoje o principal propagador de notícias falsas sobre o BNDES é o próprio governo federal. E é tão provável que haja recuo nesse tema, como haja recuo no tema do kit gay etc. O que podemos esperar é que esse discurso perca a credibilidade junto à opinião pública mais esclarecida e que com o tempo o presidente e seus filhos encontrem outros inimigos para animar sua base eleitoral.

Não faz sentido uma reviravolta no tratamento do tema. A maior contribuição que o novo presidente poderia dar a esse debate é se ater aos fatos e afirmar o que fizeram TODOS os seus antecessores desde o fim do governo do PT (estamos falando de quatro ex-presidentes): afirmar que é nonsense a referência à ‘caixa-preta’. Quem sabe a confiança de que goza junto ao presidente da República possa fazer diferença".

No final das contas, com alguns percalços e tentações – "jatinhos", por exemplo –, o que a atual diretoria do BNDES fez foi exatamente o que previmos. E o papel da opinião pública mais qualificada foi fundamental. O relatório da última CPI do BNDES foi recebido com escárnio pela imprensa, as decisões judiciais sobre a denúncia do MPF não foram apenas de rejeição, mas de enfática negação de evidências sobre malfeitos no Banco. Sabíamos também que a consultoria americana divulgaria seus resultados, o que acabou acontecendo com quase um ano de atraso. A fake news sobre os jatinhos foi rechaçada em quase todos editoriais de uma imprensa predisposta a bater no BNDES. Diante da falta de qualquer evidência de malfeitos, o que restava ser feito e dito pelo presidente?

Bom que o presidente Montezano fez, ao fim, o que era correto. Teve coragem de apresentar o que os fatos sugeriam. Teve que se arriscar a informar a verdade ao presidente da República, sob ameaça crescente de ficar contra a opinião pública esclarecida, que o Banco que ele preside não tem história de malfeitos.

Mas isso não acabou ainda. É hora de explicar e contar direito a história das operações de comércio exterior. É hora de ficar claro que o BNDES não vai receber calote de Cuba. É hora de explicar que o fundo que garante as exportações de serviços de engenharia é lucrativo e capaz de absorver o impacto de eventuais inadimplementos. E ainda, que o papel responsável de um governo que está preocupado com os efeitos desses inadimplementos é negociar com os países que suspenderam pagamentos e não os hostilizar por razões exclusivamente demagógicas e eleitorais. É hora de agir de forma muito firme e, publicamente, responder declarações de ministros do TCU sobre as operações de comércio exterior.

Além disso, no molde do que fez a Petrobras, seria fundamental que houvesse um pedido de desculpas aos funcionários do BNDES que tiveram suas vidas pessoais e suas reputações comprometidas.

Felizes porque a justiça começa a ser feita em relação ao BNDES, fechamos este ano de 2019 esperançosos de que a virada começou. O mito da "caixa-preta" é o mais popular dos que assombram o BNDES, mas não é o único. Assim como ele caiu, cairão também os mitos plantados pelo Ministério da Economia e pelos economistas amigos do mercado financeiro.

Feliz Natal e um bom Ano Novo para todos!

Acontece

Ato de protesto e solidariedade

Acontece

Plenária sobre o PAS lota auditório

Opinião

Charge de Nelson Tucci

VERSÃO IMPRESSA

(arquivo em PDF)

 

EDIÇÕES ANTERIORES

(a partir de 2002)

SOLIDARIEDADE

Artigo do presidente da AFBNDES na Folha

“Caráter fantasioso da tal da ‘caixa-preta’ do BNDES vai emergindo”. Este é o título de artigo publicado pelo presidente da AFBNDES, Arthur Koblitz, na Folha de S. Paulo. “Ainda estamos, contudo, muito longe de desconstruir a não menos enganosa narrativa que está presente no discurso do atual Ministério da Economia sobre o BNDES. O discurso não é só do ministro e seus secretários, é verdade, está muito vivo na fala de vários economistas, principalmente aqueles mais populares no mercado financeiro. A narrativa é: o BNDES foi desviado de suas funções nobres, como financiamento da infraestrutura, e resolveu virar sócio de empresas, as chamadas 'campeãs nacionais’”, escreve Arthur.