O Apocalipse de São Paulo ou por quem vomitam sexistas e pistolas?

Paulo Moreira Franco

Economista do BNDES

Number 4: I know you heard this before
Things fall apart; the centre cannot hold;
(Notorious B. Yeats)

3.14 Pi
3.15. Conheço as tuas obras: não és nem frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente!
3.16. Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te.
Apocalipse

Cá esteve na segunda retrasada o ministro Barroso. Até domingo pretendia abrir este texto com ele: discutir quão menos afetado é longe das câmeras da TV; quão insosso foi; quão indelicada sua exumação literal do que foi uma confusa (porém poética) pergunta feita por uma funcionária do Banco; quão patéticas as palmas de pé; quanta saudade da lúcida sabedoria de Nélida Piñon com que nos abençoou numa tarde Maria (a Sílvia) em contraste com as abobrinhas recheadas de Globo e Harari ali servidas.

Mas as epígrafes estavam escritas bem antes, antes mesmo da vinda do ilustre – controvérsias sobre quão ilustrado – ministro. Sinceramente, não as esperava tão proféticas. Sinais e maravilhas aconteceram. Não Daciolo ficando na frente de Meirelles ou de Álvaro – isso já esperava desde o primeiro debate. Mas à frente de Marina, isso surpreendeu.

Para usar uma terminologia à qual estamos acostumados cá no Banco, a política brasileira foi "reestruturada". O sistema partidário consolidado pós-Constituinte recebeu a foice de seu retorno de Saturno. A conta da política de austeridade – iniciada na substituição de Mantega, continuada pelo princípio de tem que manter isso aí no pós-Golpe – finalmente chegou. As sementes plantadas em 2013, regadas em 2015, finalmente permitiram o desabrochar dessa Amorphophallus titanum. Finalmente, finalmente, finalmente, preencha o que quiser, finalmente. Partir logo para os finalmente, diria um avatar de nosso ex-presidente, ex-candidato a vice de 0,8%.

Das muitas abobrinhas proferidas pelo ministro Barroso, uma delas foi a default de que temos muitos partidos (que em geral segue-se de uma defesa de distrital misto, como se isso nos tornasse automaticamente em alemães. Dica para virar alemão: representantes de funcionários no board das empresas. Muito melhor que o distrital misto e a cláusula de barreira). Mas o fato é que desde que o STF em 2007 resolveu tornar lei algo que os constituintes recusaram três décadas atrás (3/3/88, para ser preciso), que o parlamentar que trocar de partido perde o mandato, com o sutil adendo de que isso não acontece para os que se filiarem a partidos recém-criados (o derrotado legislador abria espaço de migração apenas para partidos em extinção, mostrando que os deputados conhecem mais seu métier do que Suas Excelências), a política brasileira passou a se comportar como um reloginho. A cada eleição a fragmentação aumenta. E aumenta com um curioso padrão. O número de partidos efetivos na eleição de 2010 para deputado federal foi de 10,4 partidos. Em 2014, o número saltou para 13,3 partidos. Em 2018, atingiu-se 16,5 partidos. É como se a cada eleição três novos partidos fossem criados... tipo assim, um de oposição, um governista e um de neutros... hum, será que Suas Excelências criaram uma fragmentadora de partidos no seu afã civilizatório de reformar o sistema político brasileiro?

Mas até aí morreu Neves... quer dizer, esse até sobreviveu, escondido como deputado, com uma votação não tão expressiva assim (19º mais votado). Mas Jucá, Eunício, Requião, Magno Malta... o estrago no Senado foi gigantesco. Mas voltemos à Câmara, Casa à qual retorna Aécio, dela ex-presidente. E olhemos para São Paulo. O jovem Eduardo Bolsonaro, reeleito com expressiva votação, e a jornalista Joice Hasselmann, tiveram votações acima de um milhão de votos, com o sempre presente jornalista Celso Russomano em terceiro e o realmente jovem Kim Kataguiri, militante conservador, colunista da Folha, como quarto colocado. Será a essa nova liderança, à nova inteligência que Kim tão bem representa a quem se dirige o ministro Barroso em diálogo?

A profissão também é uma sinalização importante nesta nova política: há uma Policial, um Capitão e um Pastor nos dez mais votados em São Paulo. O primeiro nome do PSDB que aparece na lista, Bruna Furlan, foi a 25ª mais votada, numa votação que encolheu em relação às eleições anteriores (mais de 270 mil votos em 2010, 178 mil em 2014, menos de 127 mil agora). De 14 deputados – 20% da bancada de 2014 –, o PSDB foi reduzido a seis (sua menor bancada da história). O PT, que era a segunda maior bancada com 10, continua a segunda com dois a menos (as cadeiras devem ter ido para o PSOL, que pulou de 1 para 3). Dois também perdeu o PSC, os gloriosos talentos eleitorais do Filho e do Pastor, para PSL e PODEMOS, que ninguém elegeram em SP em 2014.

Aliás, essa movimentação de cadeiras, se vista em âmbito nacional, é muito surpreendente: do total de 513 cadeiras que compõem a Câmara, em números agregados 110 trocaram de partido. Se isso lhes parecer estranho, não propriamente o é: entre 2014 e 2010 foram 94, dos quais 54% deveram-se aos "partidos novos" criados por Kassab e Paulinho da Força para abrigar refugiados dos mais diversos matizes. Mas o fato de que esses eleitos pelo PSL foram basicamente novatos, gente sem experiência na Câmara (e por vezes na política) – e não gente que migrou para o governo, como suspeito foi boa parte dos 40 deputados eleitos pelo PRN de Collor em 1990 (uma eleição onde 19 partidos elegeram deputados federais, com um número de partidos efetivos de 8,7) – torna esta eleição uma verdadeira ruptura.

Nas assembleias legislativas a coisa foi mais surreal: do Chuí com o Tenente Coronel Zucco (será ele parente do príncipe da Nação do Fogo?); passando por Alba, de Blumenau; pelo Delegado Francischini, cuja movimentação lembra Rivelino; pela recordista Janaína Paschoal, a Donzela de Orléans do Impeachment; pela atitude jovem e a clareza ideológica de Rodrigo Amorim; pela dupla Capitão Contar e Coronel David, Exército e PM de mãos dadas, no MS; e param por aí os ventos polar(izador)es. Se há um exemplo dessa onda bolsonarista, Agnaldo Timóteo e o Cacique Juruna na eleição de 82 – quando as pessoas (por força da lei eleitoral de então) tinham necessidade de votar em alguém do PDT de Brizola – são o melhor que me vem à memória. Só que dessa vez é um imperativo moral e não legal que as guia a escolher esses campeões de votos.

O Centro enquanto projeto está morto. A ideia de que se faça um governo conduzido por pessoas das quais ninguém realmente gosta só porque elas estão no meio de uma linha imaginária já era. A ideia de uma política deseletrificada, desapaixonada – morna – isso também cá sucumbiu. A globalização e o neoliberalismo cobram seu preço na periferia, assim como cobraram no Ocidente desenvolvido. Uma grande sacada do meu falecido mestre Olavo Brasil, a de que a decadência do segundo maior partido do Ocidente (uma alusão a uma frase de Francelino Pereira, de que a ARENA era o "maior partido do Ocidente" – portanto, o MDB era o segundo) era a sombra sob a qual se estruturava a política brasileira, ganha uma nova dimensão com essa hecatombe. Para bem ou para o mal, nossa política vê esmagados os últimos vestígios da ordem sobrevivente ao fim do regime de 64. Os quatro partidos herdeiros dos dois maiores partidos do Ocidente, PP e DEM, MDB e PSDB, perderam ao todo sintomáticas 64 cadeiras entre as que entraram na eleição e o resultado desta.

Minha adorada amiga Ana Lúcia contou-me uma vez de um texto do Júlio Barroso, "porque vomitam os Sex Pistols", que fora inspirado por um episódio por eles presenciado envolvendo o jovem Lobão. Lobão, um dos intelectuais desse Brasil sob a perspectiva de ser arrebatado pelo fantasma dos valores do Movimento, como define nosso Excelentíssimo Senhor Presidente do STF. Ideólogo oriundo do meio artístico, como Lobão, envolvido na mesma luta, Alexandre Frota foi escolhido para representar o estado mais desenvolvido do país. Oxalá possa pôr em marcha o soerguimento da vir nacional, nem que seja por meio de prótese.

Sob o terno abraço de Minerva e Febo, espero, dorme José Guilherme Merquior, alheio ao que cá se passa, aos embaraçosos Barrosos e às suas consequências. Repouse a Razão.

Enquanto se desmantela a Ordem, cá discutimos quando, no âmbito da reestruturação, sob a égide de um planejamento estratégico que não levou em conta a distribuição em U de nossas preferências políticas, o Diretor responsável multiplicará para obtermos a Área do Círculo numa nova etapa do estar em Movimento.

Há de brinde um artigo impublicável, ainda sobre o Mintzberg, que tratei no artigo anterior. Alguns dos temas que lá estão retornarão nestas páginas impressas.

 

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