O outro ideólogo

"Aí chega um sujeito completamente tosco, bruto e consegue voto como o Lula conseguiu. A elite brasileira, em vez de entender e falar assim, pô, nós temos a oportunidade de mudar a política brasileira para melhor…". Guedes fez uma pausa e prosseguiu, parafraseando as críticas ao seu candidato: "Ah, mas ele xinga isso, xinga aquilo… Amansa o cara!" Pergunto se é possível amansar Bolsonaro. "Acho que sim, já é outro animal" – Revista Piauí, O Fiador, nº 144, setembro de 2018.

Ninguém fala sobre outra coisa. O "ideólogo" foi o termo que o Jornal Nacional deu para ele. E se saiu no JN é porque você tem que saber de quem estamos falando. O ideólogo xinga para valer os membros do chamado "núcleo militar do governo", indicou ministros, xingou um dos ministros que indicou. Xinga os jornalistas em geral, Harvard, as universidades brasileiras, e por aí vai. Se considera o maior intelectual brasileiro vivo. Seus indicados formam a parte mais tragicômica de um governo que já conta com tantos expoentes. Segundo o "ideólogo", ele criou uma escola de gênios. Parte dos gênios integra o governo e é responsável por uma cota respeitável de declarações que marcaram os primeiros quatro meses desse ano: "nazismo é de esquerda", "brasileiros são canibais", chegando mais recentemente à perseguição de universidades que "promovem balbúrdia", "o processo de Kafta" e a celebração do método, que não existe, de fazer avaliação de 7 milhões de crianças com 500 mil reais.

Talvez seja excesso de otimismo dar por certo que a imprensa, a inteligência nacional, as universidades, o modo de ser do brasileiro, serão capazes de enfrentar esse ideólogo. Digamos apenas que as chances são boas.

Mas é o outro ideólogo que preocupa mais. O ministro da Economia não é um acadêmico, não é um economista aplicado, não é um economista com experiência em gestão. Ele é fundamentalmente um ideólogo, e agora, do novo governo. Como fez tantas vezes, inclusive no Teatro Arino Ramos Ferreira, é ele quem teoriza sobre a aliança entre liberais e conservadores que constitui o atual governo. É ele quem opõe essa aliança à suposta predominância na Nova República da social-democracia representada, na sua visão, nas versões PSDB e PT. Os governos do PT e, talvez, o do PSDB também, não tiveram a figura de um ideólogo como Guedes.

Trata-se, é claro, de um ideólogo incomparavelmente mais sério (afinal, a base de comparação é bem baixa) e incomparavelmente mais perigoso.

Os caminhos propostos por Guedes mantêm o país no rumo tomado em 2015. A direção é a mesma, mas a proposta é acelerar. A fórmula que propõe é profundamente antipopular. Reduziu a pó a popularidade de dois presidentes em quatro anos. Por que deveria ser diferente agora? Supondo a permanência da democracia, podemos prever que essa direção da política econômica não durará tanto. E poderíamos dizer que a democracia vai ser capaz de cuidar da ameaça que ele representa. Mas o que a trajetória de 2015 para cá mostra também é que, ainda que finalmente essa política seja rechaçada, muita destruição ficará pelo caminho. E se alguém fizer uma coleção de todas referências já feitas ao BNDES, pode ficar bem assustado.

O primeiro ideólogo é o mentor, o porta-voz de um presidente que não se destaca pela capacidade de articular argumentos, que se expressa apenas por chavões. Então esse ideólogo articula em argumentos e teorias conspiratórias que mostram a impossibilidade de qualquer domesticação, de qualquer amansamento. Guedes estava errado, já podemos dizer com quatro meses.

Tem muita gente se sentindo moderno e progressista porque rejeita e despreza as imprecações do primeiro ideólogo, mas referenda as do segundo. Critica o primeiro por dificultar o trabalho do segundo.

Do nosso ponto de vista, o verdadeiro desafio é outro. Quem põe em risco de forma estrutural nossas instituições e a retomada do desenvolvimento é um espírito fundamentalista e ganancioso que sabemos que não será domado. A única esperança é que o segundo ideólogo seja destituído de poder antes que suas ações gerem um cenário amplo e irreversível de terra arrasada.

 

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