Opinião

Edição nº1527 – quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Uma Tarde na Cidade Fantasma

Reminiscências do Centro do Rio de Janeiro, da Escola Politécnica e do BNDES

Israel Blajberg

 

Engenheiro aposentado do BNDES

Janeiro de 2023. Aos 78, já fazem quase 12 anos que deixei de comparecer diuturnamente ao BNDES. A patroa e nossa assessora doméstica não gostaram, elas adoravam quando eu saía para o Banco, pois consideravam minha presença um estorvo para a arrumação do lar, varrição da casa, além de exigir o preparo de refeições, alertas para tomar os remédios, gotas, pomadas, ocupação das mesas com a papelada. Só que foi impossível não atender ao generoso incentivo do Banco, o Plano de Desligamento Voluntário, a gota d'agua para precipitar a saída em massa.

Hoje já sabemos que não éramos insubstituíveis, e somos instados a conviver com restrições de entrada e estacionamento no Edserj. Com o tempo, infelizmente nosso contingente diminui a cada ano que passa, bem entendido, o bloco de colegas que conviveram monoliticamente unidos e preservados durante os longos anos sem concursos. Lamentavelmente, as doenças e a Covid vêm cobrando seu tributo, nos levando colegas queridos tão prematuramente.

Há tempos não tenho ido ao Centro. A pandemia transformou aquele outrora pujante espaço quase que em uma Cidade Fantasma. A necessidade de obter guias de multas e IPVA de toda a família (sempre sobra para mim...) me fez rumar para a região, aproveitando a calmaria de começo de ano.

As filas são imensas, mas essas são as únicas horas em que vale a pena ser idoso... Logo sou atendido, mas a funcionária alega que tenho muitas guias, e eles só podem imprimir uma única. Certa vez meu saudoso genitor me mandou comprar uma passagem, mas voltei com a resposta de que estavam esgotadas. Aprendi então, ainda criança, que essas conversas nada mais são que a senha para informar que sim, poderei ser atendido mediante um certo agrado... então voltei lá no guichê e como por milagre a passagem apareceu. Dessa vez não foi diferente, e ao final entreguei discretamente um papelzinho dobrado para a funcionária, contendo o tal agrado.

Uma vez cumpridas as missões, meus passos se perdem pelas ruas outrora elegantes da Belle Époque descritas por Joao do Rio e fotografadas por Augusto Malta. A chuvinha miúda, sem pressa de parar, escorre das nuvens que escurecem a tarde triste. Carioca, Ouvidor, Avenida Central, Uruguaiana, algumas dão até medo de tão vazias, mais parecendo uma Cidade Fantasma, tantas são as lojas fechadas, como se fosse um domingo. Em passado recente chegava a ser difícil esgueirar-se em meio à multidão. Antigas lembranças do tempo em que levado pela mão da saudosa Mamãe, junto com o irmãozinho menor, percorria o Centro pontilhado de lojas tradicionais, como a Perfumaria Kanitz, Casa José Silva, Principe, Clark, Sloper, Mundo dos Brinquedos, Colombo, Casa Cavé, Manon, lojas elegantes em sua maioria desaparecidas.

Quase que por instinto caminho em direção ao Largo da Cruz de São Francisco, onde ainda altaneiro se ergue o antigo prédio de belas linhas neoclássicas no qual estudei. Eterna Polytechnica, no meu tempo a saudosa Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, hoje Escola Politécnica da UFRJ, na Cidade Universitária da Ilha do Fundão.

Prédio onde Dom Joao VI mandou instalar a Academia Real em 1811. Ainda é a mesma edificação, pouco mudou. Aqui se formaram tantas turmas, entre elas a minha, Turma Povo Brasileiro, de 1968.  Alma Mater da Engenharia Nacional, capim e plantas vicejam há anos pelos pisos e paredes.  Na tardinha chuvosa do verão quase-inverno de janeiro, o prédio é o retrato do Centro da Cidade, pouco cuidado, vazio, escuro e triste. Cidade Fantasma. Prédio Fantasma. Anos 60. Que contraste com aquela tarde luminosa, quando no meio da multidão de candidatos localizei meu nome na lista dos aprovados no vestibular, as folhas datilografadas afixadas no quadro de avisos do pátio interno!  O prédio cheio de vida, alegria, esperança.

Passadas tantas décadas, de pé naquele mesmo pátio, cerrando os olhos pensativo, vejo-me garoto, vibrando com a aprovação. Com a agilidade dos meus 18 anos, desço correndo as escadas e sigo depressa em direção à Central, pegar o trem até Madureira e de lá caminhar até o Campinho. Logo chego em casa para dar a boa notícia aos meus saudosos genitores. Não tínhamos telefone, celular nem pensar ... Eles me abraçam, emocionados, imigrantes acolhidos aqui nesta terra abençoada, antevendo um futuro melhor para o filho, diferente das agrugras na Polônia sofrida e gelada, onde o “numerus clausus” barrava sonhos.

Logo desperto das minhas divagações e me entristeço com o prédio coberto por antigas pichações. As instalações resistem, resta saber até quando.

Mais uma breve caminhada, e já estou adentrando o Edserj, pela Av. Paraguai. De novo vem as lembranças, no silêncio e solidão do prédio que o trabalho a distância mantém quase vazio.

Era um final de tarde em pleno verão. Da minha mesa à janela do Edserj podia ver ao longe a densa linha de cumulus-nimbus e ouvir as trovoadas distantes que prenunciavam o aguaceiro. Logo o dia escureceu, faiscaram os relâmpagos, de repente tudo ficava iluminado. A chuvarada logo passou, o sol voltando e permitindo a visão do casario, das montanhas distantes. Foi uma bênção ter passado tantos anos trabalhando naquela supermesa à beira da janela. E pensar que ainda nos pagavam para estar ali, pensando o progresso do Brasil.

Foram 36 anos... Nem todos a quem acompanhei naquela jornada estão mais aqui neste Vale de Lágrimas. Uns partiram cedo, logo nos primórdios, outros prematuramente, nos deixando a eterna saudade de tempos felizes.

Valeu a pena? Como ensinou o piedoso cristão-novo Fernando Pessoa, “Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena".

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